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Pra que serve o novo acordo ortográfico?

Fonte da imagem: esabelsalazar.pt

À beira do prazo limite de 4 anos( que se encerra em 31 de dezembro de 2012), para a implantação final do acordo ortográfico, quando a grafia anterior não será mais considerada correta em textos de jornais, revistas, concursos, livros, etc me faço esta pergunta. De forma prática, ele retirou acentos diferenciais de palavras na escrita( sem que tenha mudado a fonética delas), mexeu na regra dos hifens e excluiu o trema. Nada tão transformador.

Fiz uma pesquisa na internet para tentar entender o que se disse a respeito na sua implantação e o que as pessoas entendem como o motivo desse acordo.

Em geral, o que encontrei como informação é de que ele foi pensado para melhorar a comunicação escrita entre os falantes de língua portuguesa, e isso incluiria também o trânsito de livros, revistas, jornais e documentos entre os países, que não necessitariam mais de tradução. Mas isso teve efeito na prática?

Nos últimos dois anos trabalhei numa editora cuja matriz é portuguesa e, por conta disso, fui duas vezes a Portugal e falava semanalmente com portugueses.  As conversas, ora formais, ora informais tinham sempre um ponto em comum: não houve uma única vez em que não tive de pedir para repetirem algo ou explicar uma palavra ou expressão, e nada desses problemas de comunicação teve a ver com acentos ou hifens.

Daí, comecei a enxergar que o acordo ortográfico não passava de ato de perfumaria, algo que não promovia mudança real, profunda e que tivesse por fim um efeito consistente. Se era para melhorar a comunicação teriam de tentar unificar o vocabulário, reduzir a velocidade de fala dos portugueses ou acelerar a nossa, ou então não justificar o acordo com a melhoria da comunicação, pois quanto a isso, ele mexeu de forma insignificante.

No trabalho editorial, muitas vezes tive de traduzir livros de autores portugueses ou, ao adquirir a tradução portuguesa de um livro escrito em inglês, traduzir esta versão para o português brasileiro.  Novamente, hifens e acentos não representavam nem 10% das diferenças.  Vocabulário, ordem e encadeamento das frases, expressões, essas sim, eram importantes para a compreensão do texto.

Separei um trecho de um livro em Português de Portugal para verem na prática o que estou falando. Marquei em amarelo o que considero, deveria ser alterado numa versão brasileira. E logo abaixo, a minha versão nacional do mesmo trecho.

Peço que observem os trechos marcados. Obviamente, um leitor com razoável capacidade de compreensão conseguiria entender a versão original, mas dentro do conceito de que uma obra bem traduzida é aquela que parece ter sido escrita originalmente em nosso idioma, verifiquem se as alterações que fiz não torna a leitura mais fluida.

Homens há muitos, de Francisco Salgueiro

– Confesso-te que gemi. Quando senti que ele estava quase a vir-se, disse «Ohh… que bom». Fingi que tínhamos um orgasmo simultâneo. Inspirei-me no canal dezoito. Foi um belíssimo «Ohh…que bom». Se algum produtor de cinema tivesse ouvido, de certeza que me convidaria para fazer dobragens de filmes pornográficos.

Estar ali, com ele em cima de mim, foi tão excitante como descascar amendoins. E sabes o que fiz no final? Dei-lhe uma festinha na cara e um beijinho na testa!

– Vocês já namoram há quanto tempo? Cinco anos não é?

– Estamos quase com seis anos de namoro. Fazemos seis no dia um de Junho. É incrível como já passou tanto tempo! Enfim… mais uma noite de sexo, em que o meu prazer ficou fechado por detrás de uma porta blindada.

– Mas diz-me lá: por que finges que tens prazer quando estás com ele? Por que gastas os teus sons e gemidos com uma pessoa que te dá bocejos na cama? Por que não acabas com ele de uma vez por todas? Para teu bem, e para meu também.

– Não consigo. Ele é muito meu amigo e acha que sou a mulher da vida dele. Não posso decepcioná-lo. Os meus pais adoram-no.

Nós somos quase como irmãos.

By Português brasileiro

– Confesso que gemi. Quando senti que ele estava para gozar, disse «Ohh… que bom!». Fingi um orgasmo simultâneo. Aquilo foi inspirado no canal erótico. Foi um sonoro «Ohh… que bom». Se algum produtor de cinema tivesse ouvido, com certeza me convidaria para fazer dublagens de filmes pornográficos.

Estar ali, com ele por cima, foi tão excitante quanto descascar cebolas. E sabe o que fiz ainda, antes de sair? Fiz uma cara de satisfação dei um beijinho na testa!

– Há quanto tempo vocês namoram? Cinco anos não?

– Quase seis. Faremos seis anos em 1º de Junho. É incrível como já passou tanto tempo! Enfim…mais uma noite de sexo, e meu prazer trancafiado por uma porta blindada.

– Mas então por que finge o gozo com ele? Por que faz esses sons e gemidos com uma pessoa que não te dá prazer? Por que não termina esse relacionamento? Para teu bem, e para meu.

– Não consigo. Ele é meu grande amigo e acha que sou a mulher da vida dele. Não quero decepcioná-lo. Os meus pais também o adoram. Somos como irmãos.

Fora dos livros, a conversa certamente não foi afetada pelo acordo. Conversas informais entre falantes dos dois continentes continuarão a ser entrecortadas com perguntas, What?

As diferenças não param nisso. Querem ver como fica um título de livro lá e cá? Vejam este título de filme:

A Rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo

Conseguem imaginar qual é o filme?

Então, vamos falar sério. Isso não é reforma para melhorar nada, isso é burocracia.  Isso me lembrou muito da forma como aceitamos ser enganados pelas propostas de políticas nas eleições e que depois não são realizadas e tudo fica por isso mesmo. Ou ainda, das guerras que são geradas para aquecer economias, como a mais recente, envolvendo EUA e Iraque, também baseada em premissas equivocadas, tal como esse acordo.

Por fim, recomendo este vídeo, dentre tantos que podem ser encontrados na internet, onde há uma entrevista em que linguistas importantes em Portugal criticaram todas as ideias desse acordo na época do seu anúncio.

http://www.youtube.com/watch?v=E-VWXRyEIYA&feature=related

Se quiserem comentar, postem também em meu blog:  www.faroeditorial.wordpress.com

 Esse texto foi uma colaboração de: PEDRO ALMEIDA, jornalista e professor de literatura, com curso de Marketing pela Universidade de Berkeley. Autor de diversos livros, dentre eles alguns ligados aos animais, uma de suas paixões, trabalha no mercado editorial há 18 anos. Foi publisher em editoras como Ediouro, Novo Conceito e LeYa. Atualmente é Diretor Editorial da Lafonte, que inclui o selo Larousse no Brasil.  Reside em São Paulo.

Jornalista, pedagogo e professor da Rede Municipal de Pindamonhangaba. Criador, coordenador e editor do "Na Ponta da Língua". Reside em Pindamonhangaba, São Paulo.

Comentários

  1. Mirian Ibanez disse:

    Realmente, só perfumaria. E barata. Toda vez que tenho de excluir um acento que para nós faz sentido eu me irrito. Enfim, coisas kafkianas. Que você captou muito bem. Como sempre.

  2. Ari Riboldi disse:

    A reforma ortográfica atém-se estritamente a aspectos gráficos. Não promove grandes mudanças. Disseram que o objetivo era unificar a grafia, creio eu, em primeiro lugar, para propósitos comerciais.
    Seria ingênua imaginar uma reforma que pudesse unificar a semântica, as várias linguagens dentro da Língua Portuguesa. Jamais poderá acontecer isso. Seria a morte de tanta criatividade, de tantas formas genúinas de falar e de expressar.
    Existe, antes de mais nada, a Língua Brasileira, assim como existe a de Portugal e a de outros países do mesmo idioma. E dentro do Brasil, um país continental, há tantos falares, tantas linguagens diversas, regionais, com vivência específica.
    Em suma, podem interferir na grafia, todavia jamais ditarão normas e as palavras dos falantes.
    E muitos pedirão para repetir as palavras e frases, pedirão para explicar o significado, pois coexistem diferentes, genuínos e específicos modos de falar, de dizer, com significações criativas, em mudança, em consonância com as culturas de diferentes usuários da Língua Portuguesa.